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OS SEGREDOS DE UM PORTUGAL DE MUITAS FACES

por

Carlos MGL Teixeira

 

 

Um dos resultados mais interessantes que me parece que a actividade que a SPO – Sociedade Portuguesa de Ovnilogia (SPO), está a ter até ao momento, é a de nos revelar um país no qual, de uma forma transversal a classes profissionais ou etárias, encontramos cidadãos, perfeitamente funcionais nos meios em que se movem, detentores de família e amigos, trabalhadores, isentos na forma como a sociedade os integra, mas que depois... têm um segredo. Um segredo que pode assentar numa suspeita de que são levados frequentemente por civilizações extraterrestres, mas que também pode basear-se numa convicção de que existe algum tipo de conspiração que os engloba, ou até noutros aspectos de igual ou maior invulgaridade. Um segredo que não contam a ninguém, quanto muito partilham com um ou outro familiar ou amigo mais próximo, mas que, sentem poder revelar, não ao médico, não ao psicólogo, mas a um grupo que os escuta e que, sem se saber de que forma ou porquê, lhes inspira confiança – a SPO - o receptáculo discreto dos segredos que uma nação europeia, com milhares de anos de história, ignora e esconde, no dealbar de um novo milénio.

 

Este aspecto, que a princípio se revela como uma mera curiosidade, encerra em si mesmo uma questão que não poderá deixar ninguém indiferente - onde reside a normalidade? Onde se traça a linha que define a fronteira entre a sanidade - considerada o estado normal - e a insanidade mental? Recentemente, o debate tem-se alargado nas esferas da psiquiatria. Se até ao passado recente o esforço era dirigido no sentido de, com base em sintomas específicos, catalogar as pessoas como sãs ou esquizofrénicas, ou detentoras de outra qualquer patologia, o esvanecer dessas barreiras estanques tem revelado a hipótese de que esta questão é incompatível com barreiras ou diagnósticos peremptórios. Podemos, desta forma, estar perante uma infinidade de patologias desconhecidas, bem mais subtis que a mera esquizofrenia, através das quais pessoas dos mais variados estratos sócio-económicos, podem simultaneamente funcionar em sociedade, gerar família, contribuir para a História, e no entanto, divagar internamente sobre convicções bizarras que, reveladas ao ouvido errado, ou saudavelmente assumidas, lançariam o escândalo e confundiriam as mentes zelosas de um status quo que afinal se revela cada vez mais, artificial. Na evidência destes segredos, quantos não seriam de imediato catalogados, ainda que na ausência de um diagnóstico adequado à subtileza da situação, como se toda a existência isenta e "normal" realizada até ao momento, se eclipsasse. Podemos também, no entanto, considerar outra hipótese, bem mais difícil de ser aceite - a de que existimos todos, imersos num limbo nebuloso em que a sanidade e a insanidade se misturam. Não existe negro ou branco, todo o mundo é cinzento. Variam apenas as tonalidades.

 

A realidade é inegável - em segredo ou não, esta dicotomia de "cidadão exemplar / alucinado divagante" existe. E se existe, repercute o seu efeito em todos os aspectos da sociedade. O segredo não elimina esses efeitos, apenas coloca um véu sobre as causas.

 

Esta realidade não é decerto, característica única de Portugal. De forma mais ou menos velada, existirá provavelmente em cada canto deste globo, sobretudo no contexto de uma globalização progressiva.

 

Neste âmbito, é possível configurar a relevância de um trabalho que, ainda que pareça fugir ao propósito pragmático da Ovnilogia, pode assentar nas bases providenciadas pela confiança que as pessoas parecem nutrir pela SPO. Esta natureza de confidente idóneo que é concedida à SPO, pode-lhe facilitar esse trabalho - o de averiguar as nuances destes "segredos" de Portugal - a prevalência na nossa sociedade, as características mais ou menos comuns, as diferenças que poderão existir entre vários tipos de classe etária, profissional, etc. A colaboração com profissionais da área da saúde mental, ciências do comportamento, neurobiologia, e investigadores das demais áreas relacinadas com a memória humana é absolutamente essencial.

 

 

Abril de 2006

 

 

 

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